Yet again, as primeiras noites frias de Outono regressam. Embora bem diferentes...
Todos parecem querer disfarçar. Todos fingem que não se nota; que nós, os Ascorosos, não descemos como de costume aos sítios comuns.
Intrigante... que destes momentos de horror e nojice lhes possa surgir uma espécie de atracção irresistível, reparo. Nesta altura do ano esperam sempre, a medo, que deambulemos confiantes e esplendorosos pelo seu espaço. Recolhidos na sua beleza - nos dias assim - insignificantes, parecem organizar-se secretamente para apreciar este género de mostra de terror. As suas inquietações sempre nos tornam mais fortes - se assim entenderemos - e deixa-os vulneráveis à nossa magnânima vontade. Têm como certo que nestas breves noites, qualquer um deles pode ver a sua perfeição aleatoriamente escolhida para ser corrompida e conspurcada, de forma ávida e monstruosa, com a repugnância suja que nos caracteriza. Esta é a desgraça mais ousada que podem enfrentar, e o misto do seu pavor com o secreto desejo de experimentar o deleite imundo e depravado do mito que nós somos, solta-se numa resultante tensão de odores sensuais de agonias e prazeres desmedidos.
Mas desta vez não. Este ano os Monstros mantêm-se recolhidos; e lá em baixo as gentes encostam-se em desassossego, expectantes, sedentos de possuírem novas aberrações reveladas. Mas nada. As noites chegam, o frio instala-se e... nada.
Enervam-se as gentes, corroídas de curiosidade, enquanto de longe contemplam as janelas frias da Torre, iluminadas por uma candeia das de antigamente. Nesta altura, estas janelas de luz ténue, são o único mistério que pretendem ver desvendado. O deslumbramento destas e os segredos que ocultam, são o que de mais tenebroso e fecundo conhecem; porque sabem que é naquele covil obscuro que se vivem outras vidas, e sonham-se outros sonhos, e sofrem-se outras dores. E não reconhecem tentação maior que vir a sofrer-se a dor dos outros, sabendo que temporariamente.
As horas, os dias, as noites passam e esgotam-se cadenciadamente. E nada...
Um único abominável ser ascoroso passeia o seu assombro... como que perdido. Percorre todas as ruelas cabisbaixo e não fita absolutamente ninguém - não por falta de atrevimento, mas antes por seguir genuinamente desinteressado em cruzar os seus olhos com os de alguém. De forma vil e egoísta percorre os sítios comuns acumulando as suas dores só para si. A sua própria monstruosidade parece padecer de um descuido de quem não liga ao que quer que seja, excepto ao fardo que parece carregar. Pesaroso e vadio, segue lentamente no seu próprio mundo, indisponível para qualquer provocação dos que o seguem caminhar de olhar suspenso. Dele, não surgem quaisquer sinais que possam transparecer sensações - nem boas, nem más. A sua neutralidade irrita quem dele esperava a viscosa aspereza que distingue tão bem os da sua espécie. Fechado nos seus pensamentos, nada se afigura partilhar, deixando fugir apenas a profunda amargura de quem sofre do maior dos desgostos. Os seus olhos, sem chama ou fulgor, sem céu nem inferno... são os do que passa pelas mais hediondas torturas em silêncio. A sua solene passada marca o ritmo a uma marcha que ninguém ousa interromper - não que por ele sintam algum respeito, que quem se encontra exposto neste tipo de fragilidade raramente o consegue obter, mas porque há sempre uma natural compaixão por quem sofre das dores que se manifestam junto ao coração. Uma compaixão por quem se viu forçado a dizer adeus, e caminha agora desolado e incompleto. Nem volúpia, nem erotismo, magnificências ou segurança! Nas primeiras noites frias deste Outono não existem braços descontrolados que chamem uns pelos outros! Apenas um manto de misérias que fazem doer a garganta e o ventre de forma inconfundível, apenas reconhecida por quem tenta (sobre)viver a um amor com tanto de profundo como de não correspondido.
Por largos minutos e imensas horas arrastou o seu pesar por todos os recantos da Vila - indiferente às gentes e ao tempo - sem satisfazer ponta nenhuma da curiosidade dos que dele pretendiam sorver algo que não isto... Então, no seu desespero irreversível, encostou-se no canto mais desconfortável, e sob a mais triste das melodias, ergueu finalmente o seu rosto fechado, revelando enfim ao seu público inesperado... que...
...tendo - sem remédio - deixado de ser quem sempre foi.
[Tu não sabes, nem eu quero que saibas, o que tem sido.]
Da agonia prostrada de um Monstro que se recolheu sozinho, sobressai ainda o horror profundo de ter que viver com ele próprio.
Dentro daquela casa, os passos que se ouvem têm hoje sempre a mesma cadência. E são agora acompanhados por mais nenhuns. Mais leves. Mais breves. Idos. Apenas os seus próprios. Arrastados. Vagarosos. Pesados. Infames. Deambulam gravemente por cada divisão.
O ar, denso e doentio, não se deixa dissolver pelo vento que entra livremente. As janelas, lá em cima naquela Torre, estão partidas e abandonadas. Lá, os silêncios a dois, de contemplação, ao som dos copos cheios e dos cigarros, já não existem. A toada continua baixinha e impregnada de fumo e álcool, mas quem ali vive sabe que não soa ao mesmo (ora, deixa-te de merdas, que sabes bem que os silêncios bons são apenas os partilhados- dito de mim para mim, bem entendido).
A casa já não vive de dia. E longe vão os tempos em que a repugnância deste ser passava de sala em sala, à tua procura, e te encontrava no quarto mais luminoso, envolta nos cortinados quase transparentes. Esses, agora, são negros e opacos. As salas estão fechadas, escuras e não querem saber de mim. O chão levantou e range ferozmente, em protesto, à minha passagem. Foge da minha sombra desacompanhada. As paredes, vazias, apodrecem e estão surdas. Os tectos curvam-se e tentam chegar ao piso de baixo. Àquele onde não estou.
Mais uma esquina dobrada, e mais um canto com a tua ausência. Horas são as que passo em frente à porta do teu quarto, a imaginar de como era quando tinha gente dentro. A porta está fechada. Selada. Para sempre.
O eco, da ponta oposta, é trémulo e longínquo. Ele mesmo vai chegando cada vez mais a medo. De repente, um pontapé numa garrafa vazia perturba a quietude momentaneamente. E o silêncio regressa. Persistentemente.
Afasta-se o cortinado roxo da janela, mas ninguém se vê passar. E nem sequer será pelo rigor invernoso de meses passados. Esta, é a mais pura solidão. Cruelmente resumida.
Não há desgosto maior do que ver tudo isto esvair-se. Sem testemunhas.
Na profundeza da solidão que acolhemos, eu e os meus semelhantes caímos frequentemente no incontornável mistério da nossa ascorosa existência. Não no sentido do início da existência em si, nem mesmo no porquê da existência nestes termos (os que nos caracterizam), mas antes sobre a motivação da continuação desta.
Milhares são os anos de aberrações geradas pela Natureza e desde sempre que estas espécies de falhas existem e se escondem.
As desgraças, as catástrofes, são muitas vezes entendidas como um ponto de equilíbrio. Uma forma sádica de controlar o que de bom prolifera. O restabelecer do nível dos pratos da balança. Afinal, uma excepção que confirme a regra. Uma forma de dar uma passo atrás, para se poder dar dois em frente.
Talvez as criaturas monstruosas possam confortar a sua existência sob o pretexto de dar contraste a quem emana beleza. Talvez possamos encarar o que vemos ao espelho como um oposto necessário. Talvez seja melhor ficarmos entretidos com esta passividade, e não deixar que sobressaia o poder nefasto que a nossa monstruosidade nos faz carregar. Pergunto-me se o Vesúvio vive mais aflito com a ameaça destruidora que a sua existência representa, ou se antes se deprime profundamente pela paisagem morta e horrorosa que tem o poder de gerar.
Não existe beleza nem num nem noutro ponto de vista. Por mais que possamos vasculhar as incertezas da nossa existência, não conseguimos nunca ficar afastados da abominável criação que somos. Então, uns manifestam-se abertamente, numa espécie de grito desesperado por reconhecimento. Outros recolhem-se e preferem esconder-se, renunciando à força a razão da sua existência (qualquer que seja ela).
De qualquer das maneiras, surge repetidamente a interrogação inicial. O que nos poderá fazer continuar? Que destino temos traçado e o que é suposto fazer-se dele? Poder-se-á, por um lado, dar largas às faculdades ascorosas que possuímos, fazer delas uma imagem de marca, e vincá-las o mais possível nos tempos de vida, deixando a sua cicatriz como lembrança; Outros, bem mais parvos, contemplam infinitamente a beleza exterior, admirando-a e sonhando com ela. Para sempre com um infinito nó na garganta, típico da paixão fervorosa pela impossibilidade que vamos criando; Outros resignam-se e resumem-se à Torre que os encarcere. São os que não depositam esperança em mais coisa nenhuma. Estes são os que se sentem calejados. Os que se habituaram a não receber o que quer que seja, e a não se atrever a dar o que quer que seja. Talvez sejam os que já passaram pelos estágios anteriores: os de provocar horror, e os de viver irreversivelmente apaixonados. Serão provavelmente os mais frios e difíceis de mover. Mas sobretudo, são os que adormecem a reconhecer que pequenos gestos, pequenas dádivas - quando oferecidas com a genuinidade que pouco reconhecem noutros seres - deverão ser tratadas com a maior das delicadezas. E devem ser mantidas vivas o mais que se conseguir. Se possível, perpetuar. Não esquecer. Conservar.
Não é só o viver-se surpreendido por se sentir que há quem possa ligar aos que são como nós, mas acima de tudo dar valor às intenções que nos chegam nos momentos certos. Segurar agradecidamente as mãos que se estendem quando nos sentimos ir mais e mais ao fundo. E, nestes últimos meses, nada tem sido mais importante que isso. Nada. E responde-se, por agora, à questão de "o que nos faz continuar". São coisas assim.
Yet, enfim, como o Vesúvio, ter medo que a vontade de se manifestar possa provocar o que não se quer. Porque as nossas manifestações são destas, e justificam muito bem o recolhimento na Torre.
Da Vila todos se aperceberam da súbita inquietação que se vive no cimo daquela Torre. Dias, semanas completas de sossego e silêncio, agora interrompidos por movimentações e preparativos. À noite. Todas as últimas noites ninguém tem estado adormecido por trás daquela janela... quando já ninguém acreditava que este ano pudessem voltar as habituais celebrações. As coisas não estão como dantes. E ninguém sabe dizer o que neste momento vai na alma de quem ali habita.
Da sua reclusão, esta noite trouxe a criatura que ninguém queria ver. Como todos os anos, o mocho orelhudo desceu do cimo da maldita Torre deixando porta-a-porta a convocatória para a festa anual. Este ano, promete-se no escrito, as luzes não vão apagar-se a meio da cerimónia.
Todos estão convidados, e não há lugar a recusa.
Os passos seguintes dão-se sob o silêncio das ruas da Vila. Ninguém me vê e ninguém me sente, que todas as portas estão fechadas. É mentira: não foi minha opção ficar sozinho.
Não acredito que, conscientemente, alguma vez possamos vir a fazer mal um ao outro.
Não possuo o pretensiosismo que me faça achar que tenho o poder de o fazer. Yet, coisas do passado assombram o que sou. A minha natureza, parece, passa por isso mesmo: construir uma teia dissimulada que atraia quem não merece... envolver, abraçar e, mascarado, dar de mim o que é impossível realmente vir a ter. E depois... depois... fazer ruir tudo, miseravelmente, sem aviso, num trovão sem relâmpago.
Fito, sem expressão, estes meus dias estranhos e engasgo-me em tudo o que é de mim. Arranho o visco que me cobre numa espécie de afazer que me enjoa e assusta. Eu sei. Há algo que corre dentro de mim que tomou o controlo.
Há dias que desci ao fundo deste poço, e sei que ninguém dará pela minha falta. E arrisco descer ainda mais fundo...
Não sei bem do que vim à procura (ou do que fujo). Talvez busque sítios que não me deixem descansar. Sonho com lugares que me inquietem de maneira insuportável. Que me cortem, e firam, que sangrem a infecção que trago e que não me deixem tranquilo. Não posso descansar. Não posso ter aqueles momentos antes de adormecer, em que se fantasia e se sonha. Em que se analisa pormenorizadamente a desgraça dos dias. Não posso permitir-me ficar desocupado e ter tempo para mim próprio. Estar comigo próprio é-me insuportável. Quero concentrar-me em descer mais fundo neste poço... o mais fundo que conseguir... até onde seja escuro o suficiente para ninguém me ver. O fundo o suficiente para ninguém me ouvir. E desejar que alguém se lembre de o vir tapar. Conter-me a mim e o que carrego longe do que quer que seja.
Não consigo perceber porque me dói o corpo. Porque o tenho torcido e pendente. Sinto que a minha pele verde se distende e tenta desprender. Os meus ossos fazem-se ouvir, como que num choro enlutado. A minha cabeça dói violentamente e estou tão tão tão tão cansado. Não julgo conseguir aguentar muito mais tempo de pé. Não sinto que alguma vez possa vir a fazê-lo de novo. Interrogo-me que partes de mim estarão ainda vivas; que partes de mim resistem a viver comigo; que partes de mim não manifestam a profunda desilusão de pertencer ao meu corpo. A minha voz, independente da minha vontade, canta músicas de horror, eufórica, louca. Ninguém a ouve. Aceito e deixo-me embalar pelas dores que provoco ao meu corpo. Cada movimento surge num esforço desmedido que me afecta cada órgão de maneira destrutiva. Por desespero admito ceder e espalho energicamente a doença pelo meu peito. Que se espalhe depressa! Que o atravesse depressa! Estranho tudo isto mas compreendo. E não luto contra este abandono. O momento em que as partes que nasceram comigo decidem correr pelas suas vidas. O momento em que nem o meu corpo consegue suportar o que vai em mim. Sinto as minhas carnes, secas, afastarem-se finalmente do meu esqueleto deixando-me unicamente com o que está podre o suficiente para continuar comigo. Pouco de mim resiste ao que me corre nas veias.
Dir-me-iam que é o copo de tinto a falar. Mas só tu sabes do que o meu copo está cheio.
Cada palavra que me escreves; e cada uma que decidas não escrever. Todas as coisas que me revelas; e todas as que mantens reservadas. Todos os sonhos que te contei; e todos os que mantenho em segredo. Todas as lembranças que trago; e todas as que forço - inutilmente - esquecer. Todas as vezes que tive coragem de te dizer o que ia em mim; e todas em que morro de medo de o fazer. Todas as vezes que sonhei, ansiei, jurei trocar tudo, pelo teu toque; e todas as que me encolhi com o aproximar da tua mão. Tudo o que tive o privilégio de receber de ti; e tudo o que não ouso vir a pedir-te.
São tudo pequenas gotas do teu veneno que foram enchendo o meu co(r)po. E pouco mais dele aguentam as minhas veias carregar. Mas em noites assim é-me impossível resistir a tomar mais. Beber tudo de uma vez!
Não quero saber do meu corpo. O que de ti corre em mim assumiu o comando.