sexta-feira, maio 01, 2009

Sometimes I dwell with madness... (dos sons que oiço e do veneno que abraço)

Fito, sem expressão, estes meus dias estranhos e engasgo-me em tudo o que é de mim. Arranho o visco que me cobre numa espécie de afazer que me enjoa e assusta. Eu sei. Há algo que corre dentro de mim que tomou o controlo.



Há dias que desci ao fundo deste poço, e sei que ninguém dará pela minha falta. E arrisco descer ainda mais fundo...

Não sei bem do que vim à procura (ou do que fujo). Talvez busque sítios que não me deixem descansar. Sonho com lugares que me inquietem de maneira insuportável. Que me cortem, e firam, que sangrem a infecção que trago e que não me deixem tranquilo. Não posso descansar. Não posso ter aqueles momentos antes de adormecer, em que se fantasia e se sonha. Em que se analisa pormenorizadamente a desgraça dos dias. Não posso permitir-me ficar desocupado e ter tempo para mim próprio. Estar comigo próprio é-me insuportável. Quero concentrar-me em descer mais fundo neste poço... o mais fundo que conseguir... até onde seja escuro o suficiente para ninguém me ver. O fundo o suficiente para ninguém me ouvir. E desejar que alguém se lembre de o vir tapar. Conter-me a mim e o que carrego longe do que quer que seja.

Não consigo perceber porque me dói o corpo. Porque o tenho torcido e pendente. Sinto que a minha pele verde se distende e tenta desprender. Os meus ossos fazem-se ouvir, como que num choro enlutado. A minha cabeça dói violentamente e estou tão tão tão tão cansado. Não julgo conseguir aguentar muito mais tempo de pé. Não sinto que alguma vez possa vir a fazê-lo de novo. Interrogo-me que partes de mim estarão ainda vivas; que partes de mim resistem a viver comigo; que partes de mim não manifestam a profunda desilusão de pertencer ao meu corpo. A minha voz, independente da minha vontade, canta músicas de horror, eufórica, louca. Ninguém a ouve. Aceito e deixo-me embalar pelas dores que provoco ao meu corpo. Cada movimento surge num esforço desmedido que me afecta cada órgão de maneira destrutiva. Por desespero admito ceder e espalho energicamente a doença pelo meu peito. Que se espalhe depressa! Que o atravesse depressa! Estranho tudo isto mas compreendo. E não luto contra este abandono. O momento em que as partes que nasceram comigo decidem correr pelas suas vidas. O momento em que nem o meu corpo consegue suportar o que vai em mim. Sinto as minhas carnes, secas, afastarem-se finalmente do meu esqueleto deixando-me unicamente com o que está podre o suficiente para continuar comigo. Pouco de mim resiste ao que me corre nas veias.


Dir-me-iam que é o copo de tinto a falar. Mas só tu sabes do que o meu copo está cheio.

Cada palavra que me escreves; e cada uma que decidas não escrever. Todas as coisas que me revelas; e todas as que mantens reservadas. Todos os sonhos que te contei; e todos os que mantenho em segredo. Todas as lembranças que trago; e todas as que forço - inutilmente - esquecer. Todas as vezes que tive coragem de te dizer o que ia em mim; e todas em que morro de medo de o fazer. Todas as vezes que sonhei, ansiei, jurei trocar tudo, pelo teu toque; e todas as que me encolhi com o aproximar da tua mão. Tudo o que tive o privilégio de receber de ti; e tudo o que não ouso vir a pedir-te.

São tudo pequenas gotas do teu veneno que foram enchendo o meu co(r)po.
E pouco mais dele aguentam as minhas veias carregar.
Mas em noites assim é-me impossível resistir a tomar mais. Beber tudo de uma vez!

Não quero saber do meu corpo. O que de ti corre em mim assumiu o comando.

35 Comments:

At 01 maio, 2009 14:57, Anonymous film-m k said...

fazemos sempre falta a alguém...
(inclusive, os ascorosos :)

 
At 01 maio, 2009 17:57, Anonymous Anónimo said...

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At 01 maio, 2009 20:50, Blogger Psiquê said...

"Interrogo-me que partes de mim estarão ainda vivas(...)"


Este texto e todas estas interrogações provam que a parte de ti que ainda está viva, é somente a mais importante...

 
At 02 maio, 2009 06:14, Blogger Escabroso said...

Fazemos?

Faço?

Está viva, ainda?

 
At 02 maio, 2009 10:44, Blogger Psiquê said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 02 maio, 2009 10:46, Blogger Psiquê said...

Está viva ainda. Se não estivesse, já não doía...

*

 
At 02 maio, 2009 12:29, Anonymous Anónimo said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

 
At 02 maio, 2009 14:37, Anonymous film-m k said...

psiquê:
muito boa a tua resposta!

 
At 02 maio, 2009 18:41, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 03 maio, 2009 16:16, Blogger Ás de Copas said...

Uffff...
Intensas e cruas palavras...
Levo comigo o que senti ao lê-las.

Deixo-te o meu silêncio, porque existem silêncios que têm voz...

 
At 04 maio, 2009 00:17, Blogger Escabroso said...

Ás,

;)

 
At 04 maio, 2009 00:17, Blogger Escabroso said...

anna,

http://www.youtube.com/watch?v=UbBqxHuoPEc

 
At 04 maio, 2009 01:32, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 04 maio, 2009 13:29, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 04 maio, 2009 18:07, Blogger Psiquê said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 04 maio, 2009 18:11, Blogger Psiquê said...

film-m k

;)

 
At 06 maio, 2009 16:36, Blogger Morgana La Folle said...

No dia em que escreveste este texto estavas dócil, monstro. Como foi isso?

Darkest kiss

 
At 07 maio, 2009 00:38, Blogger Escabroso said...

Hum... dócil? Hum... talvez. Acho que é fácil ser-se levado quando as forças que puxam são tão fortes. Não me sinto com grande vontade para lhes resistir. Por isso, diria que sim. Dócil. Resignado.

Foi um "Just give me a reason, some kind of sign. I'll need a miracle to help me this time...".

Cheers,

*

 
At 11 maio, 2009 02:14, Anonymous anna said...

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At 12 maio, 2009 13:17, Blogger Escabroso said...

Sinto-te, com pontualidade, regressar aqui persistentemente.
Desejosa, agora, de apagar tudo o que foi escrito. Transformar tudo em silêncio. O do qual se faz um grito.

Corroer-nos-emos, paralelamente, ironicamente, com os enganos e desenganos que fazem da nossa solidão quase loucura.

Nevertheless, achei bonita a tua dor.

Apeteceu-me inexplicavelmente dizer-to (não sabendo como o fazer...).

Cheers,

 
At 12 maio, 2009 15:29, Anonymous Anónimo said...

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At 17 maio, 2009 19:12, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 18 maio, 2009 01:21, Blogger Escabroso said...

(estranhamente) em repeat por algum tempo. ;)

 
At 19 maio, 2009 17:41, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 19 maio, 2009 17:52, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 19 maio, 2009 17:54, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 19 maio, 2009 17:59, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 19 maio, 2009 18:01, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 19 maio, 2009 20:50, Blogger Psiquê said...

Esta é a parte em que nos começamos a sentir a mais nesta lista de comentários...;D

Ainda assim, e metendo-me onde não sou chamada (mas já que as declarações são públicas) gostava de elogiar o vosso diálogo feito através da musica...Ela tem sempre esse dom de apresentar as palavras da maneira certa, o que de outra forma não se conseguiria dizer tão bem...

*

 
At 20 maio, 2009 13:18, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 21 maio, 2009 21:23, Blogger Psiquê said...

Pois...as mensagens foram removidas pelo autor...assim o meu comentário deixa de ter razão de ser...

Mas gostei de receber a tua resposta ;)


Soul Kiss*

 
At 23 maio, 2009 00:26, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 23 maio, 2009 04:20, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 28 maio, 2009 13:42, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 05 junho, 2009 22:43, Blogger anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 

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