Benditos os que de mim sentem repulsa (as dark as it can be)
Falei-te dos tempos que não eram negros. Os dias em que fui um dos outros.Falei-te da era que se seguiu. Das nuvens que me assombraram e dos tombos que me deram as cicatrizes que carrego. Falei-te dos tempos em que descobri do que sou feito e das coisas de que sou capaz. Dos momentos em que me olhei ao espelho e me apercebi que não podia pertencer ao mundo comum. Mas ao mundo dos vermes que se alimentam de sentimentos de outros. E dos tempos em que - finalmente como Monstro - me decidi recolher.
Falei-te de castelos e dos cortinados que me cobrem. Falei-te da discreta janela que existe neste Torre. De onde contemplo tudo o que é belo, lá fora. E que serve de barreira entre esse mundo e o asco que aqui habita. Falei-te dos seres que me visitam... que atraio... que magoei e esmaguei, impotente contra a minha Natureza. E julgo que percebes, então, porque digo que os Monstros estão destinados a esconderijos. Separados, isolados de tudo o que é vivo e belo.
O destino que me foi traçado é este. O de me separar do que pretende ser livre e vivo. O destino é a solidão. O sono. E tudo o que me pode rodear é inanimado. Morto. Apenas o que não pulsa se pode dar ao luxo de se aproximar dos que são como eu. E tudo o que vive e se aproxima, ou se arrepende ou se petrifica. E já me habituei, na verdade, a gostar deste deserto entre paredes. A apaixonar-me pelo que não pode ter alma. A amar o que não tem vida. É bem mais fácil assim...
Benditos os seres que de mim sentem repulsa. Benditos os que amei o suficiente para os afastar de mim.
26 Comments:
"Benditos os que amei o suficiente para os afastar de mim."
Isto é muito forte. E é muito duro chegar um dia a um ponto em que se pensa isto. Sei-o. Porque já o pensei.
Enfim...
(comentário parvo mas esta tocou-me fundo de mais; acho que não conseguia ficar "caladinha e sossegada" nem que quisesse...
Beijo*
PS: Costumo perder-me muito por cá mas nunca sei o que dizer -_-''
Frankie,
Duro, sim.
Não. Parvo não.
Que bom saber que passas por cá. :)
Cheers,
*
Bendito tu por tão bela descrição do mundo onde habitas, onde ainda sei que pulsas, afinal quem amaste ainda perdura em ti dentro do horrivel inanimando que demonstras aqui!
beijo
Gostei do teu blog, vou voltar :)
Obrigado pela visita ao meu estaminé.
Beijitos :)
"É bem mais fácil assim..." -» preguiçoso!
(brincadeira :)
***
muito triste este post, mas muito belo...
hoje,
beijos solenes
Filmy,
Mesmo a brincar... voltas a acertar (para não variar).
Sou muito preguiçoso, sim. :D
Sim, muito triste. :\ E solene, como os beijos,
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Perl e Fada,
Obrigado. Welcome.
Cheers, ;)
Este é um texto que me toca profundamente. Quem olha para os nossos blogs, á primeira vista, parece que pertencemos a mundos diferentes... mas não.
senti cada frase, cada palavra, cada virgula e cada ponto final... como se fosse escrito por mim.
A (auto)destruíção em tudo o que toco... sempre fui assim, e sempre serei. Uma necessidade (in)consciente de afastar as pessoas que me são mais "queridas" aos mais diferentes niveis.
é uma maldição da qual não me consigo livrar.. e pior.. é que essas pessoas não conseguem entender, nem lidar com isso.
teria muito para dizer, agumas delas talvez abomináveis... mas essas nem coragem tenho para as confessar.
ascoroso? não me parece. maldito, talvez.
vou voltar concerteza!
beijo
Tenho a certeza que isto que li é apenas uma parte de ti revelada num outro eu que só se mostra quando o medo o faz procurar uma capa para se proteger...
(Também tenho um assim...)
Cheers *
Peach,
É bom saber que, por essas Torres fora, existem mais desta espécie. "Abominável", "Maldito"... são palavras que ainda não tinha usado. Estou cheio de vontade de o fazer, agora.
Obrigado, *
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Ás,
Sim, há uma capa. Mas, no fundo, isto são revelações destapadas.
Cheers dos que gostas, ;)
*
E vieste tu parar precisamente ao sitio onde só param seres estranhos, malditos...vampiros...e que vestem as mesmas cicatrizes que tu vestes...
E que orgulho, saber que vemos a beleza disto tudo!!!
Kisss... Ascoroso!
Ascoroso, conheces Isidore Ducasse?
Yap. :)
Reconheço uma chispa de inspiração maldororica nos teus escritos :)
Indeed! ;)
Quando me comecei a tornar no que julgo ser um escabroso, quando me comecei a tornar no que sou, recordo-me da forte companhia de Fernando Pessoa (do qual não gosto muito hoje em dia, sem ser no Livro do Desassossego), W. B. Yeats, William Blake, Aleister Crowley, Allan Poe, Samuel Beckett e Isidore Ducasse. Mas destes, teve Isidore Ducasse a maior lição para mim, que a beleza é incondicional, inviolável, e imortal, e o quão confortavelmente faz ninho no bizarro e no horror, como a virgem que se entrega ao tubarão para ser intoleravelmente despedaçada e impossivelmente violada, mas mais ainda se torna virgem.
A senda está traçada nas masmorras, os passos são pesados e sopram erupções nos telhados das capelas.Fértil,a treva percorre as cidadelas húmidas da Alma e a cicatriz é quase losango transparente.
Magnetikiss;)
Escabroso...
Tenho a impressão que estive aqui e... estou zonza. Devo ter tido uma visão...
Por acaso não estava aqui um post posterior a este ?
Pois, não devia estar e eu estou a fazer uma tremenda de uma confusão.
Tenho que recomeçar a tomar as gotas...
É verdade, sim. Estava. Mas era temporário. ;)
Mas toma gotas na mesma... que é fixe. :P
Hoje não estava nada para estas coisas... Mas antes que me esquecesse de te dizer que me fizeste lembrar Kafka. O que talvez passe muito pouco ou nada por um comentário assim-assim (mas é bom, acredita)...
Este blog é muito idiossincrático: ou é o teu espelho ou totalmente o avesso.
Kisses
P. S.: Mas os seres que esmagamos não são responsáveis pelo seu próprio destino?
Que saudades de sentir o peito a queimar e das noites por dormir :S
Xiça!!!
Amei.
*
O mundo lá fora não é assim tão diferente do nosso... Mas parece que existe um espelho mágico, que reflecte o exterior com uma camada diferente de pintura.... Deixa que se abata a tempestade, deixa que a chuva caia e as tintas desapareçam.... O cinzento é igual...
.____________olá Escabroso
estou fascinada com a tua escrita
PARABÉNS!_____pelo teu "espaço"
beijO
Repulsivamente bom!
Para ser lido em noites de (in)certeza, (in)sônia, (in)expressão, (ins)piração...
Gostei da repulsa.
Valquíria,
Talvez um pouco dos dois (os espelhos).
E não. Nesta masmorra não são responsáveis por coisa nenhuma, muahahahAHAHAHAH... (kidding... :P )
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Maria Strüder,
Gosto de te saber por aqui. :)
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Anna,
Eu também já. E espero voltar a senti-lo de novo. :P
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Blood Tears,
Talvez sim. Mas sabe-me melhor aqui. É mais... quieto. *
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Betty,
A tua também é______ hum.___ intrigante.
.__Thanks, *-_
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Ana Paula,
Acho sempre estranho que se goste desta porcaria. Mas obrigado, anyway... ;)
Permite-me recomendar-te um filme:
Restraint.
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